Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

próxima sessão - 28 fevereiro 2012

e o tema será:


fará uma leitura alternativa

2012.01.31 - Fobias

Cristina e Fernando
Fobias de Luis Fernando Verissimo
Banquete com os deuses: cinema, literatura, música e outras artes
Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até a treiskaidekafobia (medo do número 13), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insónia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insónia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência, – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
– Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina…
– Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
– Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
– Não é possível! O que você faz durante a noite?
– Tricô.
Uma esperança!
– Com manual?
– Não.
Danação.
– Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.
– Bem… Tem uma carta da mamãe.
– Manda!

Lena Pinto
Fobias diversas

Alexandra Ferreira
Não é o Fim do Mundo
Joan Borysenko
e ainda a diferença entre Fobia e Medo

António e Lena Policarpo
Livro do desassossego (excertos)
de Bernardo Soares
A tragédia principal da minha vida é, como todas as tragédias, uma ironia do Destino. Repugno a vida real como uma condenação; repugno o sonho como uma libertação ignóbil. Mas vivo o mais sórdido e o mais quotidiano da vida real; e vivo o mais intenso e o mais constante do sonho. Sou como um escravo que se embebeda à sesta - duas misérias em um corpo só.

Sim, vejo nitidamente, com a clareza com que os relâmpagos da razão destacam do negrume da vida os objectos próximos que no-la formam, o que há de vil, de lasso, de deixado e factício, nesta Rua dos Douradores que me é a vida inteira - este escritório sórdido até à sua medula de gente, este quarto mensalmente alugado onde nada acontece senão viver um morto, esta mercearia da esquina cujo dono conheço como gente conhece gente, estes moços da porta da taberna antiga, esta inutilidade trabalhosa de todos os dias iguais, esta repetição pegada das mesmas personagens, como um drama que consiste apenas no cenário, e o cenário estivesse às avessas…

Mas vejo também que fugir a isto seria ou dominá-lo ou repudiá-lo, e eu nem o domino, porque o não excedo adentro do real, nem o repudio, porque sonhe o que sonhe, fico sempre onde estou.

E o sonho, a vergonha de fugir para mim, a cobardia de ter como vida aquele lixo da alma que os outros têm só no sono, na figura da morte com que ressonam, na calma com que parecem vegetais progredidos!

Não poder ter um gesto nobre que não seja de portas adentro, nem um desejo inútil que não seja deveras inútil!

Definiu César toda a figura da ambição quando disse aquelas palavras: “Antes o primeiro na aldeia do que o segundo em Roma!” Eu não sou nada nem na aldeia nem em Roma nenhuma. Ao menos, o merceeiro da esquina é respeitado da Rua da Assunção até à Rua da Vitória; é o César de um quarteirão. Eu superior a ele? Em quê, se o nada não comporta superioridade, nem inferioridade, nem comparação?

É César de todo um quarteirão e as mulheres gostam dele condignamente.

E assim arrasto a fazer o que não quero, e a sonhar o que não posso ter, a minha vida, absurda como um relógio público parado.

Aquela sensibilidade ténue, mas firme, o sonho longo mas consciente que forma no seu conjunto o meu privilégio de penumbra.

Lena Ramos
Tu tens um medo
de Cecília Meireles
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Delfina
"O João que tinha medo de chocolates" in Histórias para ler em um minuto e 1/2
de Isabel Stilwell


Rosa
A memória do filme "Melhor é Impossível"


João
O Temor Combate-se com a Esperança in "Dos reveses"
de Séneca
Não haverá razão para viver, nem termo para as nossas misérias, se fôr mister temer tudo quanto seja temível. Neste ponto, põe em acção a tua prudência; mercê da animosidade de espírito, repele inclusive o temor que te acomete de cara descoberta. Pelo menos, combate uma fraqueza com outra: tempera o receio com a esperança. Por certo que possa ser qualquer um dos riscos que tememos, é ainda mais certo que os nossos temores se apaziguam, quando as nossas esperanças nos enganam.
Estabelece equilíbrio, pois, entre a esperança e o temor; sempre que houver completa incerteza, inclina a balança em teu favor: crê no que te agrada. Mesmo que o temor reuna maior número de sufrágios, inclina-a sempre para o lado da esperança; deixa de afligir o coração, e figura-te, sem cessar, que a maior parte dos mortais, sem ser afectada, sem se ver seriamente ameaçada por mal algum, vive em permanente e confusa agitação. É que nenhum conserva o governo de si mesmo: deixa-se levar pelos impulsos, e não mantém o seu temor dentro de limites razoáveis. Nenhum diz:
- Autoridade vã, espírito vão: ou inventou, ou lho contaram.
Flutuamos ao mínimo sopro. De circunstâncias duvidosas, fazemos certezas que nos aterrorizam. Como a justa medida não é do nosso feitio, instantaneamente uma inquietude se converte em medo.

Teresa
Alforreca e Faneca in Primeiro Livro de Poesia
de Violeta Figueiredo
Pobre de mim, tão Faneca,
Alforreca me fascina.
Sigo atrás da sua coroa,
dos seus terríveis cabelos
de gelatina e de prata:
só o vê-los me atordoa,
só o tocá-los me mata.

Alexandra Justino
O Pior Medo é o Medo de Nós Próprios in Diário de Notícias - 2003
de José Luís Peixoto

O medo é muitas vezes o muro que impede as pessoas de fazerem uma série de coisas. Claro que o medo também pode ser positivo, em certa medida ajuda a que se equilibrem alguns elementos e se tenham certas coisas em consideração, mas na maior parte dos casos é negativo, é algo que nos faz mal. (...)
O pior medo é o medo de nós próprios e a pior opressão é a auto-opressão.
Antes de se tentar lutar contra qualquer outra coisa, penso que é importante lutarmos contra ela e conquistarmos a liberdade de não termos medo de nós próprios.


Vitória
O Medo Longe de Ti (excerto)
de António Manuel Venda
Olhaste para o chão. Pareceu-me notar-te um sinal fugaz de tristeza, ou de medo, não sei. Talvez medo. Ali, a milímetros de mim, uma pequenina amostra do que era o medo. Agarrei-te o rosto, suavemente. Agarrei-o com cuidado, com mil cuidados, e deslizei os polegares pelos traços do teu sorriso. Depois empurrei-te até à porta, colado a ti, como se quisesse esconder-te de toda a gente, como se pensasse que podiam roubar-te de mim. Medo, de novo. Quis afastar essa ideia, mas de repente vi-me contigo, numa rua, à vista de toda a gente, sem que fosse preciso dar três passos para que aparecesse alguém a tentar roubar-te de mim, um pistoleiro a cavalo, um mágico apenas com umas estrelinhas de mil poderes. E eu sem saber o que fazer, sozinho, a ver-te a ser levada pelo pistoleiro, deitada de barriga para baixo, no dorso do cavalo, bem à frente dele, e ele com uma mão a segurar-te e a outra agarrada às rédeas. Como eu estava de novo com medo… Medo de te perder, mesmo abraçado a ti. Medo de não ficar contigo, mesmo sentindo as cócegas do teu cabelo no meu rosto. Sentia-me feliz, mas confuso, não tinha medo de nada, mas ao mesmo tempo tinha medo de te perder, e tu nos meus braços.


Natalina e Paulo Machado
O Sapo tem Medo
de Max Velthuijs
Um cheirinho do livro aqui

E para terminar juntámo-nos para uma brincadeira à volta do Bule de Salette Tavares

próxima sessão - 31 janeiro 2012

será o tema
fará uma leitura alternativa

2012.01.24 - Meditação

Alexandra Ferreira
"Debaixo da roupa, estamos todos nus"
de José Luís Peixoto
do livro "Abraço"

muito bem acompanhada pelo Nuno





Teresa
Não desfazendo
de Manuel António Pina de "O Pássaro da Cabeça"

Delfina
O Pássaro
de autor desconhecido
O pássaro…

Era uma vez um pássaro que vivia numa floresta de encantar num país do norte da Europa. Nessa floresta, ele realizava voos radicais que preenchiam os seus dias, mas o Outono chegou devagarinho, a roda das estações girava e o Inverno aproximava-se a grande velocidade. O pássaro sentiu a urgência de partir quando chegaram as primeira neves e com elas os grandes frios. Levantou voo e começou a voar para um local mais quente.

Algum tempo depois, o frio era tanto, mas tanto, que as asas começaram a gelar, até que o impediram de voar e ele caiu numa quinta inanimado e enregelado. No preciso local onde o passarinho estava caído lutando contra a morte, passou uma vaca que largou uma valente bosta em cima dele. Como a bosta estava quente ajudou o gelo das asas a derreter e a aquecer o passarinho que começou a piar feliz, mas o sossego e alegria foram de pouca dura para a pequena ave. Um gato que vivia na quinta e andava esfomeado, ouviu-o debaixo da bosta e com uma velocidade incrível agarrou-o e comeu-o.

  
Deste conto podem ser retiradas três morais: 

1ª Nem sempre quem te caga em cima é teu inimigo.

2ª Nem sempre quem te tira da merda é teu amigo.

3ª Mesmo que estejas atolado em merda não pies.

Rosa
Prece gratidão de Amélia Rodrigues

Vasco, Vitória e João.
Imposto sobre meditação no CLEVA
pelos próprios
João- Raramente aceitamos meditar a partir dos que foram estigmatizados como pecadores notórios, à semelhança dos cobradores de impostos e das prostitutas do tempo de Jesus. No entanto, são exatamente eles, que têm material mais abundante e profundo para quem não duvida que meditar faz bem.
(Pausa para reflexão)
Vitória- Por ordem do Exmo. Sr. Ministro das Finanças Vítor Gaspar, vai o João proceder á cobrança do IMC (Imposto Extraordinário Sobre Meditação no CLEVA).
(João percorre o grupo para proceder à coleta.)
Vasco- Meditando sobre as novas taxas do IVA: O jantar na tasca foi mais caro esta noite. Paguei o jantar mais caro do que o bilhete para o teatro.
Vitória- Já eu, só bebi e não comi para não sentir o efeito do IVA. Como o vinho não aumentou, esqueço a austeridade e bebo ao preço de antigamente.
João – Então jantaste sozinho?
Vasco- Sim, alguém quer jantar com cobradores de impostos?
Vitória- Jesus jantou! E Ele ensinava-os. Naquele tempo, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam.
Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores?»
Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»
Vasco – E a dizima cobrada na missa? Mantém a taxa do IVA?
João– Sim mantém a mesma taxa. Em negociações com a igreja, mantivemos a taxa por troca com o Corpo de Deus e o 15 de Agosto.
Vitória- Penhorámos o Corpo de Deus?
Vasco – Sim, só não sabemos se o colocamos à venda através de leilão electrónico ou nos classificados do Correio da Manhã.
João - E quem é que o vai comprar? Será que os chineses da EDP estão interessados?
Vasco – Seria outra aquisição iluminada.
Vitória - Nem me fales nisso! A taxa da energia também sofreu um aumento brutal.
Vasco - Pelo menos os livros mantiveram a taxa.
João - Só podes é lê-los à luz do dia, porque à noite ficam caros.
Vitória - Mais vale irmos ao teatro, que pelo menos não aumentou tanto.
João- Em que ficamos, afinal sobre a meditação fiscal?
Vasco - Já desisti de ir ao restaurante e de ler à noite. Agora leio um livro de dia com uma garrafa de vinho ao pé de mim.
Vitória- Por falar nisso, onde é que pagamos a fatura da eletricidade? No Continente ou nas lojas do chinês?
João – No Continente tens desconto de 10%, na loja do chinês habilitas-te a uma viagem em charter. Mas as taxas são as mesmas no Continente, nas ilhas e na China?
Vasco- Observando a verba 2.12 da lista I do Código do IVA, conjugado com a alínea c) do nº1 do artigo 18º do mesmo diploma, cumprindo com o novo Orçamento de Estado, aplica-se a taxa de 23%, até para os chineses!
Vitória - Mesmo para o Alberto João?
João - Claro, não vamos ser nós a suportar a energia da ilha do Jardim.
Vasco - Nem a troika deixava que fosse de outra maneira!
Vitória - E o IMC (Imposto Extraordinário Sobre Meditação no CLEVA) também é imposição da troika?
João - Seja ou não, têm de pagar, afinal é um imposto.
Vasco - E cobrar impostos é, ou não é, uma atividade nobre?
Vitória- A própria bíblia o recomenda. Jesus aconselha-nos a pagar impostos. Quando lhe perguntaram:
“Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar tributo a César, ou não?
E Jesus respondeu que os cristãos devem pagar os seus impostos de boa vontade, tendo dito: "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Pelo que é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa da ira, mas também por causa da consciência."
Vasco – Esta citação bíblica vem mesmo a propósito das taxas moderadoras cobradas no Centro de Saúde. A ira pelo tempo de espera, a consciência de que podemos estar doentes e depois de paga a taxa, chegou a nossa vez e avisam que o medico está de baixa.
João- Ainda a eletricidade era a 6%, um livro que li, dizia:
Para meditar, segundo a proposta do livro, é necessário despojar-se da arrogância de ser justo e perfeito, e aceitar que os cobradores de impostos e as prostitutas se tornem nossos mestres para a meditação e a oração.

Alexandra Justino
O contador de histórias - Tradição oral judaica
de A árvore dos tesouros




Helena Machado
A cidade dos poços
Contos para pensar de Jorge Bucay


Aqui numa versão animada:




António Gil
Excerto de "Meditação – A luz dentro de nós"
de J. Krishnamurti

Podemos perguntar o que é meditação - não “como” meditar. Quando perguntamos esperamos que haja alguém para nos dizer o que fazer. Se não perguntamos “como” e perguntamos o que é meditação, então temos de pôr em acção a nossa própria capacidade, a nossa própria experiência, por muito limitada que seja; temos de pensar. Meditar é ponderar, reflectir, dedicar-se, não a alguma coisa, mas ter espirito de dedicação. Espero que estejais a escutar, para descobrirdes por vós mesmos, porque ninguém, ninguém pode ensinar-vos o que é meditação, por muito comprida que seja a barba dessa pessoa ou por mais estranho que seja o vestuário que ela use. Descobri por vós mesmos e ficai com o que descobrirdes por vós, não fiqueis dependentes de ninguém.
É preciso compreender muito cuidadosamente o significado da palavra meditação, cuja raiz é “medir”. E o que é que isso implica? Desde os antigos gregos até aos tempos modernos, todo o mundo tecnológico está baseado no medir. Não é possível construir uma ponte, ou um espantoso edifício de cem andares sem essa operação que é medir. Interiormente também estamos sempre a medir: “Eu fui, eu serei”; “Eu sou isto; eu fui isto, eu tenho de ser aquilo” - o que não é apenas medida, mas também comparação. Medir é comparar: “tu és alto, eu sou baixo; eu sou branco e tu és preto”. Compreendei o sentido da comparação e das palavras melhor e mais, e não as useis interiormente, psicologicamente. Estais a fazer isso agora, enquanto estamos a conversar?
Quando o cérebro está liberto da comparação psicológica, as próprias células do cérebro que têm sido usadas para comparar, que foram condicionadas por essa comparação, despertam subitamente para a verdade de que, psicologicamente, a comparação é destrutiva. Portanto, as próprias células do cérebro sofrem uma mutação. O vosso cérebro tem estado habituado a ir numa certa direcção, e pensais que esse é o único caminho para o que quer que esteja no fim desse caminho. O que está no fim desse caminho é, naturalmente, aquilo que inventais. E quando chega um homem que vos diz que essa direcção não vos levará a lado nenhum, resistis, dizendo: “Não, Você está enganado, todas as tradições, dizem que Você não tem razão”. O que significa que não investigastes realmente - estais a citar outras pessoas, o que quer dizer que estais a resistir. Assim o homem diz: “Não resistais, escutai o que estou a dizer; escutai aquilo que estais a pensar, qual é a vossa reacção e também o que estou a dizer”. Portanto, escutai tudo isso. E para assim se escutar, precisais de prestar atenção, o que significa que há espaço na vossa mente.
Assim, descubramos se podemos viver - não em momentos de uma determinada “meditação”, mas viver a vida diária - sem comparar psicologicamente. Viver uma vida sem esse sentido de medir, de comparar, é meditação. Meditação implica um sentido de profunda compreensão dessa mesma palavra; e a própria compreensão, a percepção profunda dessa palavra é a acção que fará acabar a medida, o “mais”, o “menos”, etc., a comparação psicológica.



Helena P. e António Soares
O guardador de rebanhos
de Alberto Caeiro.
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho eu sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar em muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição intima das coisas”…
“Sentido intimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins.
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das
árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar,
Porque, se ele se fez, para eu over,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de sí próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Paulo Machado
Siddharta (excerto)
de Hermann Hesse




Ana França e Ana Valente
O pequeno caranguejo
autor desconhecido


O Pequeno Caranguejo

Numa praia protegida por rochas, vivia uma colónia de caranguejos.
Estes eram bastante pequenos, atingindo na idade adulta, não mais do que 3 centímetros.
Todos os anos, durante os meses de verão, os caranguejos perdiam a sua carapaça, expondo-se aos predadores e sendo presas fáceis para outros bichos do mar, da terra e do ar. Nesta fase do seu crescimento protegiam-se dos perigos da vida permanecendo em buracos nas rochas. Não se alimentavam enquanto aguardavam o crescimento de uma nova carapaça.
Um deles, ainda jovem, perguntava aos mais velhos por que motivo não iam para lá das rochas.
Porque não se aventuravam no mar... Os mais velhos contavam-lhe histórias aterradoras de gaivotas esfomeadas, de polvos devoradores, de pescadores furtivos. Não era seguro ir para lá das rochas. Toda a vida tinham feito o mesmo: escondiam-se enquanto a carapaça não crescia. Era assim que se fazia, era assim que podiam crescer.
O pequeno caranguejo perguntava-se por que motivo não cresciam mais uma vez que todos os anos mudavam de carapaça. Se mudavam de carapaça para crescer, porque não cresciam?
Um dia decidiu partir à aventura. Indo contra todos os conselhos e advertências dos mais velhos, e sem a protecção da sua carapaça, optou por avançar para lá das rochas protectoras.
E ainda que sentisse medo e alguma ansiedade, o seu desejo de descobrir mais do mundo à sua volta empurrou-o para lá das rochas. Enquanto seguia o seu caminho, podia ouvir os outros caranguejos a chamar por ele. A gritar-lhe, a dizer que não sobreviveria. Pediam-lhe que voltasse para trás. Chamavam-lhe louco.
Mas o pequeno caranguejo não deu ouvidos. A verdade é que, mesmo na segurança da praia ele assistira a familiares seus serem devorados por gaivotas. E... preferia morrer enquanto se aventurava por novas paisagens.
A princípio foi-lhe difícil atravessar a barreira protectora e o pequeno caranguejo lutava contra as ondas. Apesar de parecer que não saía do mesmo lugar, aos poucos avançava uns centímetros.
Enquanto lutava contra a força das ondas, o seu corpo mole foi-se tornando mais maleável e elástico. Se se aperceber, de cada vez que lutava para vencer uma onda o seu corpo parecia crescer mais um pouco. E de cada vez que uma onda o atirava contra uma rocha, ficava com a sensação de que o seu corpo mole se tornava mais rijo.
Demorou alguns dias até conseguir avançar para lá da protecção das rochas.
Quando finalmente ultrapassou a barreira, ficou de boca aberta! O mar era vasto e cheio de cores! Muitos peixes, de muitos tamanhos e cores variadas! Plantas que nunca sonhara poderem existir! E tudo parecia estar ali para lhe dar as boas vindas!
Foi então que deu de caras com um ENORME CARANGUEJO, com mais de meio metro de envergadura! Um caranguejo com uma carapaça rija e de cores vivas como nunca imaginara!
Falou com o caranguejo GIGANTE. Perguntou-lhe como era possível ser tão GRANDE.
O caranguejo gigante respondeu-lhe:
"Sabes, todos os caranguejos na tua colónia poderiam ser grandes como eu. Mas para ser assim grande, é preciso vencer a força das ondas e ter a coragem de poder ser apanhado por uma gaivota. É preciso ter a força de vontade para não desistir e lutar contra os perigos da Natureza. Mas a verdade é que a maioria dos perigos são inventados. Podemos morrer a tentar crescer, ou podemos morrer na pequenez que conhecemos desde o dia em que nascemos.
É sempre uma questão de escolha."


Mila
O chão que ela pisa (excerto)
de Salman Rushdie



Carmen
5 princípios do Reiki

tele-CLeVA #01

Olá a todos!
Não queria deixar passar o tema sem contribuir à distância para o mesmo... e como para mim a língua oficial passou a ser uma alegre mistura de inglês, francês, italiano e português, a meditação desta semana é de Robert Frost

«The Road Not Taken», de Robert Frost from blocsdelletres on Vimeo.

2012.01.10 - Diabo








Rosa
Cântico Negro
de José Régio


Um clássico no CLeva. Fica a versão dita pelo próprio



Mila
O Lobo preto
de Alexandre Dumas



António S.
A hora do Diabo
de Fernando Pessoa

- Minha senhora, eu sou o Diabo. Sim. Eu sou o Diabo. Mas não me tema nem se sobressalte.
E num relance de, onde boiava um prazer novo, ela reconheceu, de repente, que era verdade.
Eu sou de facto o Diabo. Não se assuste, porém, porque eu sou realmente o Diabo, e por isso não faço mal. Certos imitadores meus, na terra e acima da terra, são perigosos, como todos os plagiários, porque não conhecem o segredo da minha maneira de ser. Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro. Por isso esteja descansada; em minha companhia está bem. Sou incapaz de uma palavra, de um gesto, que ofenda uma senhora. Quando assim não fosse de minha própria natureza, obrigava-me o Shakespeare a sê-lo. Mas, realmente, não era preciso.
Dato do princípio do mundo e desde então tenho sido sempre um ironista. Ora como deve saber, todos os ironistas são inofensivos excepto se querem usar da ironia para insinuar qualquer verdade. Ora eu nunca pretendi dizer a verdade a ninguém - em parte porque de nada serve, e em parte porque a não conheço. Meu irmão mais velho, Deus todo poderoso, creio que também a não sabe. Isso, porém, são questões de família. Talvez não saiba porque é que a trouxe aqui, nesta viagem sem termo real nem propósito útil. Não foi, como parecia que ia julgar, para a violar ou a atrair. Essas coisas sucedem na terra, entre os animais, que incluem os homens, e parece que dão prazer - creio, segundo me dizem de lá de baixo, que até ás vítimas.
De resto não poderia. Essas coisas acontecem na terra, porque os homens são animais. Na minha posição social no universo são impossíveis - não bem porque a moral seja melhor, mas porque nós os anjos, não temos sexo, e essa é, neste caso pelo menos, a principal garantia. Pode pois estar tranquila porque não a desrespeitarei. Bem sei que há desrespeitos acessórios e inúteis, como os dos romancistas modernos e os da velhice; mas até esses me são negados, porque a minha falta de sexo data desde o principio das coisas e nunca tive que pensar nisso. Dizem que muitas feiticeiras tiveram comércio comigo, mas é falso; ainda que o não seja, porque o com que tiveram comércio foi com a própria imaginação, que em certo modo, sou eu.
Esteja, pois, tranquila. Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior - num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, aos menos, não apodrecem. Passam. Antes assim, não é verdade?

O texto pode ler-se também aqui

Vitória e Xana F.
Provérbios sobre o Diabo


Lena R.
O Eremita (adaptação do conto de Dioneo na Terceira Jornada) in Decameron
de Boccaccio


Lena P.
Com mão firme e doce (adaptação de excertos do conto)
de Maria Teresa Horta

“Coisas do Diabo”

Enterrou-lhe a faca três vezes no corpo.
Enquanto ele dormia.
Depois ficou ali muito tempo só a olhar.
Um corpo fundo até ao fundo do sangue, a faca enterrada até ao cabo de madeira velha; uma faca de cozinha, de gume fino e brilhante, durante muitos anos fechada na gaveta da cozinha..
Sem uso.

--- --- ---

Ao princípio fora diferente: riam-se os dois muito.
Abraçados.

O corpo dele quente, dentro do seu, a despertar em Renata aquela chama. Os dois a correrem na areia escaldante do meio dia, a entrarem de repente no frio arrepiado da água a abeirar-se da areia, tocando os corpos de ambos estendidos em cima um do outro.
Como se ali fosse um paraíso perdido?

Renata ficava a vê-lo dormir e era bom, não assustada como hoje, ele deitado nos lençois, ela a seu lado nada mais se passando, o peito aquietado, o coração parado, a pele gelada. Como se estivesse…desligado?

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Renata sentava-se á mesa da cozinha, a talhar na madeira figuras de mulher, tal como ela era: crânio rapado e olhos muito afastados um do outro, de um azul intenso ou de um verde cintilante de esmeralda, mas também de safira. Talhava mulheres que dormiam. Mulheres que soltavam gritos surdos. Talhava também mulheres com profundas insónias desenhadas nos olhos para sempre abertos sobre o nada. Noites inteiras ali sentada no pequeno sotão.

--- --- ---

Renata adormeceu de alívio.
Porque o matara.
Subitamente exausta. Sem força nas pernas nem nos braços.
Primeiro sentara-se e em seguida deitara-se ao lado do corpo inerte dele. E adormecera de cansaço.

--- --- ---
Gritou.
Um único grito.
Num imenso terror. Pela primeira vez a adivinhar a verdade que há meses tentava esconder a si mesma.
Gritou.
Incrédula ao vê-lo abriu os olhos a fitá-la. A erguer o tronco, mover as ancas no branco dos lençois e endireitar as costas, soerguer os ombros, desviar as pernas da cama, poisar os pés ainda incertos no chão, começar a levantar-se, a erguer-se, a pôr-se de pé sempre com aquele zunido a sair-lhe do peito e da boca ao abri-la num esgar qualquer.
O olhar vazio fixo nela.
Renata estava parada no mesmo sítio, paralisada. Incapaz de um gesto ou de uma palavra. Afinal presa daquele grito único que não parava de lhe sair da garganta. De o soltar pela casa até ir aninhar-se lá em cima no sótão,a olhar a boca muda daquela mulher que talhara na véspera: enroscada de terror em si mesma, a cara virada para o alto, a boca escancarada.
Viu o marido começar a avançar na sua direcção, um pouco cambaleante. Os movimentos ainda não totalmente coordenados.

Como um autómato.
Um androide.
Um robot.

Delfina
Tradições…
de João Lutas Craveiro

Dizem que na véspera de Natal podemos deixar a mesa por levantar, a comida e as bebidas que sobram vão alimentar o menino Jesus. Mas já das vésperas de Ano Novo nada deve restar sobre a mesa, pois estaríamos a alimentar o Diabo. Ora, certamente que com as políticas anunciadas de empobrecimento da população portuguesa, forçada esta a recompensar os crimes financeiros, mais os sucateiros do governo anterior (ai tão amigos do PS!) e os cobradores de portagens, convenhamos que O DIABO NÃO É TÃO FEIO COMO O PINTAM! Nenhum destes Primeiros-Ministros moralistas, Ministros sábios ou Assessores servis terá, um dia, erguida em sua honra uma estátua. Poder-se-á também perguntar: e o Diabo, tem alguma estátua erguida em seu nome? Sim, tem, e não sei porquê foi construída nesta Ibéria, do lado a que chamam de Espanha. Mas, sim, o Diabo tem uma estátua, provavelmente a única estátua do Diabo, que se conhece neste mundo, em lugar público! Mas quem é esse «anjo caído»? Nada mais próximo de nós, humanos, esse Diabo, o «Deus da Imaginação», porque proibido de criar. Tudo foi já decidido por Deus ou o FMI, não foi? Resta-nos o Diabo, o «eterno diferente, o eterno adiado» ou o «senhor absoluto do interstício e do intermédio», como dizia Fernando Pessoa. Sim, que entre Deus e o FMI há mais coisas debaixo dos céus! Acrescenta o poeta que o Diabo não pretende revelar a verdade, em parte «porque de nada serve», e em parte «porque a não conhece». O Diabo corrompe? «Deus é pior», diz o poeta, «criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem» (in A Hora do Diabo, conto de Fernando Pessoa). Deixo-vos, pois, votos de tempos mais felizes nesta Hora do Diabo, e primeiro dia de Janeiro. Apesar de tudo o mais que a seguir se adivinha.

Cristina e Fernando
Paraíso Perdido in Génesis
de Jorge de Sena
Uma versão em teatro radiofónico

Lena M., Daniel e Paula
Mala Diabo
de José Vaz

Teresa
Os nomes do Diabo (excerto)
de Carlinhos Cordel
O Demônio, Rei das Trevas
É um ser muito aquém
No Brasil tem vários nomes
E pra você ir além
Este cordel vai narrar
Os nomes que Diabo tem.

O Demo tem muitos nomes
Cabrunco ou Guaxumão
Capa-Verde ou Capiroto
Príncipe do Mundo ou Cão
O Espírito das Trevas
Chifrudo ou Cramulhão.

Beiçudo, Besta Fubana,
Bicho-Preto, O Difamado,
Cão-Miúdo, Cão-tinhoso,
Cafuçu ou Atentado,
Pode ser também Canheta
Ou então Indesejado.

Zarapelho ou Ranheta,
Lúcifer, Satã, Canhim,
Capirocho ou Dianho,
Anhangüera ou Azucrim,
Pé-de-Bode, Pé Cascudo,
Cafute ou Coisa-Ruim.

Lá de baixo, O Inimigo
Sarnento ou Renegado
Pastor Negro, Sete-Peles
Coisa-Má, Mal-Encarado,
Coisa-à-toa, Coisa-Feia
Porco-Sujo ou Malvado.

O Espírito Maligno
O Tristonho, o Galhardo,
Pé-de-Cabra , Pé-de-Gancho,
Cifé, Sedutor, Tisnado.
Brigadeiro do Inferno,
Tição, Temba ou Danado.

Cramulhano ou Rabudo,
Bicho, Bute ou Carocho,
Tinhoso, Rei do Inferno
Mofento, Malino, Coxo,
Pai-do-Mal, Pai-da-Mentira,
Abdel, Astuto, Mocho.

O Príncipe, o Rei das Trevas
Rincha-Mãe ou Tentação
Satânico, O Mentiroso,
Pé-de-Peia ou Rabão,
Maligno, O Maioral,
O Moleque-do-Surrão.

Pode ser o Diabo-Loiro
O Xu ou Arrenegado,
O Oculto, O Moleque
Bicho-Ruim ou Assombrado
Mofino, Rabo-de-Seta
Cuidado com Cão-Danado.

Capeta, Senhor das Trevas
Jurupari, Grão-Tinhoso,
O Indivíduo, O Rapaz,
O Maldito, O Horroroso
Bode-Preto, Manfarri,
O Fute, O Mentiroso.

Príncipe ou Senhor do Inferno
Mefisto ou Barzabu,
O Feio, O Que-não-Ri,
O Cujo, O Belzebu
Canhoto, Careca, o Tal,
O Cão tem nome pra chuchu.

O Canho, O Azarape,
O Diacho, O Dião,
Peneireiro, Pé-de-Pato,
Rei-Diabo, Satanão,
Mafarrico, Tentador
Ou inferno pra ter cão.

Besta-Fera, Debo, Sujo
Futrico, Dubá-Dubá,
O Guerreiro do Inferno
Gato-Preto, O Diá,
Tendeiro, Gênio do Mal
Cuidado pra não errá.

Tranca Rua, Zé Pilintra
Trinca Seis, Excomungado
Pé-Preto, Pedro-Botelho,
Exu, Porco ou Difamado
Pode ser Marquês do Inferno
Destruidor ou Crinado.

Pode ser o Anjo Mau
Encardido ou Ferra-Brás
Ou Espírito-de-Porco
Anhangá ou Satanás
O Guerreiro do Inferno
Cuidado, há outros mais.

Se você se assustou
Com os nomes do Capeta
Não procure esse mal
Não seja um picareta
Reze, ore pra Jesus
Ele te livra da besta.

Ana Paula e Laura
Auto da Barca do Castigo
de  Cristiana Resina e Sara Rodrigues

Ana V. e Ana F.
A Nau Catarineta

Uma adaptação do romance popular "A Nau Catrineta"

João e Xana J.
Assim é Eva


Cecília
O Demónio e a Senhorita Prym (excerto)
de Paulo Coelho


Curiosidades
No jardim do Bom Retiro, em Madrid, pode encontrar-se a fonte do Anjo Caído