Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

propostas para os próximos dias

de 30 de Junho a 31 de Julho, em Lisboa, realiza-se o festival "ao Largo"; a entrada é livre, decorre no largo à frente do Teatro S. Carlos e o programa pode ser consultado aqui.



já no próximo sábado, 2 de Julho, às 21h30, os nossos Andantes estarão com o espectáculo Amnésia na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (em Telheiras). mesmo que não possam estar presentes ajudem a divulgar pelos vossos contactos!













 Em Alcochete, este fim de semana há papagaios! É o FIPA 2011! Venha o vento!

próxima sessão - 5 julho 2011

desta vez foi a Teresa a sortear o próximo tema

tema da próxima sessão

fará a leitura alternativa

2011.06.21 - Naus e Caravelas

Exercícios
- Libertar a tensão
- A imagem que passamos com a postura do corpo

Um exemplo:
um casamento



António Gil
numa adaptação de "A Nau Catrineta"


Helena R., Paulo M., António S., Helena P., Cecília, Mariana
adaptado de Gil Vicente uma espécie de Auto da Barca do Inferno

António S, Helena P, Cecília, Mariana
uma espécie de Auto da barca do inferno a partir de excertos da
obra de Gil Vicente


Uma Barca a Caminho do Inferno.
Subsídio para a compreensão do Auto da Barca do Inferno, numa versão pós-moderna da saga Vicentina, onde em poucos minutos se mostra o que se passou depois que a barca soltou amarras em direcção ao seu destino.


DIABO: António
FIDALGO: Mariana
ONZENEIRO: Cecília
FRADE: Helena P.
BRÌZIDA: Paulo M.
SAPATEIRO: Helena R.

Todos sentados na barca, excepto o Diabo

DIABO:
À barca, à barca, houlá!
que temos gentil maré!
Bem está!

[aponta para o Padre]
Vai tu muitieramá,
e atesa aquele palanco
À barca, à barca, hu-u!
Asinha, que se quer ir!
Louvores a Berzebu!
[aponta para o Fidalgo]
Ora, sus! que fazes tu?
Despeja todo esse leito!
[aponta para Brízida]
Abaixa aramá esse cu!
Faze aquela poja lesta e alija aquela driça.
[suspirando]
Oh, que caravela esta!
[vigoroso]
Põe bandeiras, que é festa.
Verga alta! Âncora a pique!

FIDALGO:
[desolado]
Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!

DIABO:
[troçando]
Vai ou vem!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.
Pois que já a morte passastes,
haveis de passar o rio.

ONZENEIRO:
[espantado olhando o fidalgo]
Santa Joana de Valdês!
Cá é vossa senhoria?

FIDALGO:
[com ar de desprezo para o Onzeneiro]
Dá ò demo a cortesia!

DIABO:
[repreendendo]
Ouvis? Falai vós cortês!
Vós, fidalgo, cuidareis que estais na vossa pousada?
Dar-vos-ei tanta pancada
com um remo que renegueis!

[o FIDALGO tapa a cabeça com as mãos e dobra-se na cadeira, para se defender]

ONZENEIRO:
[bajulador]
Houlá! Hou! Demo barqueiro!
Sabês vós no que me fundo?
Quero lá tornar ao mundo
e trazer o meu dinheiro.

DIABO:
[interrompendo-o]
rema, rema, e remarás!
Nom percamos mais maré!

SAPATEIRO:
[suspira]
Ah! Nom praza ò cordovão,
nem à puta da badana,
se é esta boa traquitana
em que se vê Jan Antão!

DIABO:
[trocista]
Santo sapateiro honrado,
como vens tão carregado?...
Nom cures de mais linguagem!
Esta é a tua barca, esta!
Não curês de mais detença.
tomai um par de remos e remai!

SAPATEIRO:
[desculpando-se]
Renegaria eu da festa
e da puta da barcagem!

BRÍZIDA:
[com ar lampeiro]
Quem chama Brízida Vaz?

SAPATEIRO:
Quem sois vós?

BRÍZIDA:
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos,
a que criava as meninas
pera os cónegos da Sé...
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas.
Santa Úrsula nom converteu
tantas cachopas como eu:
todas salvas polo meu
que nenhüa se perdeu.
E prouve Àquele do Céu
que todas acharam dono.

FRADE
[pergunta ao SAPATEIRO]
Sapateiro, essa dama ela é vossa?

DIABO
[interrompendo]
Que é isso, padre?! Que vai lá?

FRADE:
[inconformado]
Corpo de Deus consagrado!
Pela fé de Jesu Cristo,
que eu nom posso entender isto!
Eu hei-de ser condenado?!...
Um padre tão namorado
e tanto dado à virtude?

BRÍZIDA:
E eu Brízida Vaz?
Lá hei-de ir desta maré.
Eu sô üa mártela tal!...
Açoutes tenho levados
e tormentos suportados
que ninguém me foi igual.
Se vou ò fogo infernal,
lá irá todo o mundo!

SAPATEIRO:
[interrompendo-a]
Todo mundo? E eu? Como poderá isso ser,
confessado e comungado?!...

DIABO:
Xu… Tu morreste excomungado:
Nom o quiseste dizer.
Esperavas de viver,
calaste dous mil enganos...
Tu roubaste bem trint'anos
o povo com teu mester.

SAPATEIRO:
[respondendo ao diabo]
Quantas missas eu ouvi,
nom me hão elas de prestar?

DIABO:
Ouvir missa, então roubar,
é caminho per'aqui.

SAPATEIRO:
E as ofertas que darão?
E as horas dos finados?

DIABO:
E os dinheiros mal levados,
que foi da satisfação?

ONZENEIRO:
[com ar satisfeito]
Ora dinheiros!Mais quisera eu também lá tardar...
[entristecido]
Na safra do apanhar me deu Saturno quebranto.

DIABO:
[trocista]
Ora mui muito m'espanto
nom vos livrar o dinheiro!...

ONZENEIRO:
Solamente para o barqueiro
nom me leixaram nem tanto...

DIABO:
Irás servir Satanás,
pois que sempre te ajudou.

ONZENEIRO:
Oh! Triste, quem me cegou?

DIABO:
Cal'te, que cá chorarás.


FIDALGO:
[chorando]
Oh triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia:
Tive que era fantasia!
Folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.

DIABO:
[rindo]
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
e valentes remadores!

FIDALGO:
[falando para o Diabo]
Dá-me licença, te peço,
que vá ver minha mulher.

DIABO:
[trocista]
E ela, por não te ver,
despenhar-se-á dum cabeço!
Quanto ela hoje rezou,
antre seus gritos e gritas,
foi dar graças infinitas
a quem a desassombrou.

FIDALGO:
[contrariando]
Cant'a ela, bem chorou!

DIABO:
Nom há i choro de alegria?..

FIDALGO:
E as lástimas que dezia?

DIABO:
Sua mãe lhas ensinou...

FIDALGO:
ver minha dama querida
que se quer matar por mi.

DIABO:
[com estranheza]
Que se quer matar por ti?!...

FIDALGO:
[convicto]
Isto bem certo o sei eu.

DIABO:
Ó namorado sandeu,
o maior que nunca vi!...

FIDALGO:
Como pod'rá isso ser,
que m'escrevia mil dias?

DIABO:
Quantas mentiras que lias,
e tu... morto de prazer!...

BRÍZIDA
[interrompendo]
De prazer pra embarcar
trazia eu muito fato
Seiscentos virgos postiços
e três arcas de feitiços
que nom podem mais levar.
Três almários de mentir,
e cinco cofres de enlheos,
e alguns furtos alheos,
assi em jóias de vestir,
guarda-roupa d'encobrir,
enfim - casa movediça;
um estrado de cortiça
com dous coxins d'encobrir.

FRADE:
Ora estás bem aviada!

BRÍZIDA:
A mor cárrega que é:
essas moças que vendia.
Daquestra mercadoria
trazia eu muita, à bofé!

DIABO:
Ora vai mazé remando,
não me estês importunando

BRÍZIDA:
Pois estou-vos eu contando
porque me haveis de deixar

DIABO:
Não cures de importunar
Que só podes ir aqui

FRADE:
Vamos onde havemos d'ir!
Não praza a Deus coa a ribeira!
Eu não vejo aqui maneira
senão, enfim,… concrudir.

[o barco encalha]

DIABO:
Alto! Todos a tirar,
Que está em seco o batel!
Sai vós frei Babriel!
Ajudai ali a botar!

[saem todos a fugir, menos o diabo, que fica a praguejar]

Excomungados! Danados!
Entrai, entrai no batel que ao inferno haveis de ir!
[gritando]
Entrai cá! Que cousa esta!
Eu não posso entender isto!
[corre atrás deles]



Helena Pinto
de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa "
O Tejo é o mais belo rio que corre na minha aldeia

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


Vitória, Teresa, João e Alexandra F.
de Fernando Pessoa um excerto de "A Mensagem": "O Mostrengo" e excerto da "Nau catrineta"
Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar.


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
“Quem vem poder o que eu só posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”


Tomou-o um anjo nos braços,
Não o deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.


Mila
de Fernando Pessoa um excerto de "A Mensagem": "D. Dinis"
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o Oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

Teresa
de Luis de Camões um excerto de "Os Lusíadas"
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando


Paulo
de António Gedeão in "Teatro do Mundo" (1958)

Paulo e Cristina: a ler dentro de uma nau

Poema da Malta das Naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão direita benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

Rosa
de Fernando Ramos
Naus e Caravelas

No horizonte, avistam-se Naus e Caravelas
Vêm de mares outrora desconhecidos
Trazem ouro, organdins e canelas
E Valentes que no Bojador navegaram perdidos

No mastro mais alto, vem a bandeira
Que ao vento suporta feitos heróicos
De um povo, de Becos, Vielas e Ladeira
Servindo a Pátria em Descobrimentos históricos

No Tejo, as Naus e Caravelas vão acostar
Comandadas p’la onda que o rio tece
É uma prenda do Céu que vai chegar
Num dia de primavera que floresce

P’los marinheiros estão noivas de atalaia
Trazendo rosas de sorrisos perfumados
Vem vestidas de chita e cambraia
Deslumbrantes p’ra seus heróis amados

E na cidade, o povo canta por estar feliz
Dança, e chora de alegria
Vira-se mais uma página escrita de raiz
P’ra história, governada p’la burguesia


Fernando
de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

Passagem das Horas

A versão integral pode ser consultada aqui


Ana Rita
de Sophia de Mello Breyner
Piratas

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


Carmen
Modelos de Embarcações Tradicionais in "Revista Saúde Actual"


Cristina
de Jorge Sousa Braga
Armário de especiarias e ervas aromáticas

Cerofólio, manjerona
malagueta, benjoim
noz moscada, cardomomo
salsa, sândalo, alecrim

erva doce, piripiri
cravinho, canela em pau
gengibre, menta, tomilho
pimpinela, colorau

zimbro, funcho, açafrão
oregãos, coentros, caril
azedas, louro, estragão

A sessão terminou, com uns deliciosos bolinhos de coco e especiarias feitos pela Cristina!


próxima sessão - 21 junho 2011

mais uma vez coube ao André o sorteio do tema

tema da próxima sessão

sorteada para nos fazer uma leitura alternativa

2011.06.07 - Adrenalina

Adrenalina: ad-(próxima) renalis (dos rins). Produzida nas glândulas supra-renais, quando as condições do meio ambiente ameaçam a integridade física do corpo (fisicamente ou psicologicamente)


(in http://pt.wikipedia.org/wiki/Adrenalina)

Mariana e Cecília
excerto de Sophie Kinsella in "Louca Por Compras"

Rebecca Bloomwood é uma jovem viciada em compras, que está enterrada em dívidas e decide mudar de hábitos e controlar os seus gastos, mas não é fácil, e por vezes mete os pés pelas mãos (quase sempre). Podemos dizer que a adrenalina que sente a fazer compras ultrapassa em grande escala a sensatez e a força de vontade para mudar.

Cecília e Mariana
Frugalidade. Simplicidade. Estas são as minhas palavras de ordem. Uma vida nova, sem desordem, estilo Zen, em que não gasto nada. Não gasto nada. Quando se pensa nisto, perguntamo-nos quanto dinheiro desperdiçamos todos os dias? Não admira que tenha uma dividazinha considerável. E, no entanto, não é culpa minha. Limitei-me a sucumbir ao materialismo ocidental – e para lhe resistir é necessário ter a força de um elefante. Pelo menos é o que diz no meu novo livro.

É que quando fui ontem com a minha mãe ao Waterstone's para comprar as revistas semanais dela, comprei o livro mais maravilhoso que jamais li. Muito honestamente, sei que vai mudar a minha vida. Trago-o comigo, na mala. Chama-se Controlar o seu dinheiro, é de David E. Barton e é fantástico. O que ele diz é que todos podemos andar a deitar dinheiro pela janela e nem nos apercebemos e que a maior parte das pessoas poderia reduzir as despesas a metade, numa semana.

Numa semana!

… … … … … …

Mais adiante, temos Rebecca no Museu Victória & Albert, onde já estava a ficar aborrecida, até que…


Ó meu Deus, eu tinha razão! É uma loja! Há uma loja, mesmo na minha frente!

Subitamente os meus passos tornam-se leves; como por milagre, a energia regressou. Seguindo o tilintar da caixa registadora, apresso-me a chegar à entrada da loja e paro, dizendo a mim própria que não devo ter demasiadas esperanças, que não devo ficar desapontada se só encontrar marcadores para livros e toalhas de chá.

Mas não é nada disso. É mesmo fantástico! Porque é que este lugar não é mais conhecido? Há uma enorme variedade de fabulosas jóias, e montes de livros de arte extremamente interessantes, e toda a fantástica cerâmica, e cartões de felicitações, e…

Oh. Mas hoje eu não deveria comprar nada, não é verdade? Raios.

Isto é terrível. Para que é que serve descobrir uma loja nova e não poder comprar nada? Não é justo. Toda a gente está a comprar coisas, toda a gente se está a divertir. Durante uns momentos fico desconsolada, ao lado de uma exposição de canecas, a ver uma australiana que compra pilhas de livros sobre escultura. Está a conversar com a empregada e de repente ouço qualquer coisa sobre o Natal. E então tenho um golpe de puro génio.

Compras de Natal! Posso fazer todas as minhas compras de Natal aqui! Sei que ainda estamos em Março e que é um bocado cedo – mas porque não havemos de ser organizados? E quando chegar o Natal, não tenho de me meter naquelas horríveis multidões. Nem acredito que nunca tenha pensado nisto antes. E nem sequer estou a quebrar as regras – porque alguma vez vou ter de comprar as prendas de Natal, ou não será? A única coisa que estou a fazer é a deslocar o processo de compra para um pouco mais cedo. Faz todo o sentido.

Helena P. com a ajuda do António S.
de Eugénio de Andrade

Exercícios com vogais
Helena P. e António Soares

Muito haveria a dizer do confronto da mão com o sol. Da semente com a terra. Há contudo um lugar onde a paixão se esconde para explodir: o olhar.
Os sulcos, que ninguém diria de aves. A mão prestes a germinar iluminada pela lâmpada da sombra. Obstinada, na sua aliança com a própria substância do desejo.

Chegam aos pares, húmidas, jovens, de vidro quase. Vêm de outro verão, de outra garganta. Por onde entraram? Respiro-as, lentas, apaziguado. Essas vogais altas, estas vogais brancas.

Os cavalos. Escarvam o chão, impacientes. Procuram as águas do sol. Nos meus olhos.

A luz fascina, chego ao fim de rastos.


António S.
de Vanessa Gonçalves Vieira no seu blog Pensamentos valem mais que ouro
António Soares














Fernando
Poema anónimo encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças do campo de extermínio de Auschwitz

Amanhã fico triste… amanhã!
Hoje não… Hoje fico alegre!
E todos os dias, por mais amargos que sejam, eu digo:
Amanhã fico triste, hoje não…

Paulo M.
de Ian McEwan um excerto de "A criança no tempo"
Paulo Machado
















Mila
de Chico Buarque, "A Banda"
Mila















Vasco
Vasco
Ao Vasco tinha ficado atribuída a leitura alternativa desta semana... não foi uma leitura alternativa, de acordo com o próprio, mas sim um texto alternativo, este que nos trouxe a "visão do inimigo"


de um piloto alemão que não se quis identificar, no blog "ecos da 2ª guerra"






Ana Valente
de João Aguiar um excerto de "O Canto dos Fantasmas"
Ana Valente















Rosa
de Alice Vieira, um excerto de "Flor de Mel"
Rosa


André
de Luisa Ducla Soares

Chuva

              Cai a chuva, ploc, ploc
              corre a chuva ploc, ploc
              como um cavalo a galope.

              Enche a rua, plás, plás
              esconde a lua, plás, plás
              e leva as folhas atrás

              Risca os vidros, truz, truz
              molha os gatos, truz, truz
              e até apaga a luz.

             Parte as flores, plim, plim
             maça a gente plim, plim
             parece não ter mais fim


Carmen
de Edgar Semedo

Os vícios

Se tiverem curiosidade, espreitem a entrevista que a Carmen fez ao Edgar para a Palavra Fiandeira.
Aqui ficam também os endereços dos blogues de poesia da Carmen:







Natividade e Nazaré
leram ADRENALINA de sua autoria
(Texto inventado na hora para ser lido a duas)
Maria Natividade e Maria Nazaré

ALINA – (muito eufórica )  Bom dia! Bom dia! Bom dia!

NERDA – Oláá….oohhhh (abre a boca cheia de sono)

ALINA – Estás com sono a esta hora?

NERDA – (espreguiça-se ) Ainda nem acordei….

ALINA – Que horror! Desde as 6h da manhã que não paro. E o meu Fred está habituado a correr logo pela manhã.

NERDA- Que pachorra! Se eu tinha paciência para andar a correr atrás dum cão!

ALINA – Claro, o teu gato está sempre deitado à janela, e tu na cama!

NERDA – É o melhor que se leva nesta vida….! (espreguiça-se)

ALINA – Que desperdício! Dormir tanto para quê?

NERDA - …(continua a espreguiçar-se) É tão bom o descanso, não fazer nada, não pensar em nada…nada…
ALINA – Vamos Nerda, acorda, agora vamos as duas fazer um programa num parque.

NERDA – Ok. Isso é relaxante, um parque…um banco de jardim…fechar os olhos e ouvir os passarinhos… E podemos passar lá o dia?

ALINA – Claro! Mas não vamos para nenhum jardim, vamos fazer um programa radical, 2 dias de adrenalina total.

NERDA – Adrenalina total ????

ALINA – Vais adorar, vamos fazer escalada, rappel, rafting e canoagem, paintball, …, vão ser múltiplas actividades, e para acabar em beleza podemos experimentar uma corrida de karting……

NERDA – Pááára! Já chega , estás maluca, alguma vez eu ía fazer essas maluqueiras? Explica-me o que é isso de paintball e rafting?

ALINA - O Paintball é um jogo cheio de energia, a alta velocidade, com a adrenalina à flor da pele. Além de ser divertido, é também óptimo para aliviar o stress de uma semana de trabalho. Acaba por ser uma versão sofisticada dos “polícias e ladrões”ou “cowboy's e índios”. Joga-se com um grupo, dividido em 2 equipas e o objectivo é capturar uma bandeira da equipa adversária, ao mesmo tempo que se protege a nossa, ou então eliminar por completo os jogadores adversários. Durante este processo, tenta-se afastar os adversários do jogo disparando com ar comprimido pequenas bolas de gelatina cheias de tinta.

Mas excitante, acelerado, emocionante e por vezes até relaxante... o Rafting é tudo isto e muito mais. Pode ir desde uma aventura desafiadora a uma viagem calma de barco, que permite apreciar um cenário espectacular. Basta uma única viagem e estás pronta para ficares viciada. Os nossos rios são recheados de beleza e aventura óptimos para o gosto por actividades ao ar livre.

NERDA – Estás muito bem informada, mas não me convences. Isso é tudo muito perigoso. E a escalada é muito cansativa - eu prefiro ficar a descansar.

ALINA - O objectivo da escalada é o de conseguir ascender por superfícies quase verticais, em gelo, rocha ou paredes artificiais construídas propositadamente para esta prática desportiva. Exige, sim muito esforço, concentração, capacidade de resistência, grande controlo mental e corporal. As vias de escalada são normalmente curtas, ascendendo no máximo a algumas centenas de metros.

E para nos divertirmos, no último dia vamos enfrentar o desafio de vencer as curvas duma pista de karting.

NERDA – És muito engraçada, achas por acaso que eu vou entrar nesse desafio? Nem penses! Eu prefiro continuar os desafios com o meu gato. E afinal já sei muito bem o que é adrenalina: é estar em casa e sentir aquele calor, aquele frio todo a subir por mim acima sempre que ele salta da janela para o sofá e se agarra com as suas unhas aos cortinados da sala. Aí sim, de em três meses tenho que comprar cortinados novos, um corropio de loja em loja, achas que isso não é adrenalina total?


Ana Paula
de Margaret Mazzantini um excerto de "Não te movas"

Deste livro foi feito um filme (o trailer pode ser visto aqui)
Ana Paula














Alexandra F.
de Fina Casalderrey, il. de Teresa Lima "Felix, o coleccionador de medos"
Alexandra F.
















João
de Sid Watkins, um excerto de "viver nos limites"

o excerto relata, do ponto de vista do cirurgião, a morte em pista de Gilles Villeneuve em 1982.















Vitória
de Raúl Brandão, um excerto de "As ilhas desconhecidas"

Mais dois passos e chegamos ao vértice em que se descobrem de repente as Sete Cidades escondidas entre montes. É o ponto mais alto da Cumieira: tenho os lagos a meus pés, e, se me volto, o amplo panorama que abrange grande parte da ilha, mar, céu e costa, luz e irrealidade.

O mar, em toda a amplidão, forma um plano em ângulo agudo com. o plano verde da terra – e parece que vai desabar sobre ela. Na minha frente entreabre-se um abismo que nos atira para fora da vida, para regiões inesperadas de sonho. A convulsão, a brutalidade e o fogo levantaram até ao céu grandes paredes vulcânicas, dispondo no fundo do caos alguns campinhos meigos e dois lagos, um inteiramente verde, outro inteiramente azul, separados por um fio de terra e quietos, adormecidos, cismáticos. As forças desencadeadas chegaram a este resultado: – um pouco de azul, um pouco de verde, ternura e idílio... Paredes cortadas a pique, carregadas de árvores, que se despenham de cima até abaixo, acabam na água ou em pequenas chás de milho, que a luz das ilhas envolve duma frialdade casta e imóvel...

Um ah de assombro, um sentimento novo, um vago sentimento de surpresa... Pela primeira vez na minha vida não sei descrever o que vejo e o que sinto. Conheço os lagos voluptuosos de Itália e os lagos adormecidos da Escócia: o lago das Sete Cidades não se parece com nenhum que tenha visto. Existe ou sonhei esta água parada, esta grande cova selvática empoada de roxo, com aquela serenidade a ferros lá no fundo? Esta beleza estranha que não nos larga e nos contempla ao mesmo passo que a contemplamos?

O carácter da paisagem é delicado e oculto. Embora a gente veja o campanário e as casas minúsculas no fundo da enorme cratera, duvida, e chega a supor que a vara dum mágico fez parar o tempo, e aquilo se conserva encantado entre montes desmedidos e brutos que o guardam prisioneiro. O tempo passa, os homens passam; só ali tudo está suspenso, na atitude fixa no momento do prodígio. Na solidão mágica não se ouve cantar um pássaro, a água não bole, as flores não bolem. Tudo se mostra na amplidão da cratera aberta para o céu e num grande silêncio estarrecido. Tão pouca tinta! Um quadro feito de emoção; um quadro em que o verde não chega a ser verde, em que o azul é névoa, e um sopro o pó roxo suspenso no ar, puro hálito da paisagem arfando. Três riscos muito leves para fixar o encanto, como se fosse possível, só com sentimento e quase nada de cor, fazer uma obra-prima. Reparo que há efectivamente uns carreiros perdidos por entre os montes para descer lá abaixo. Mas eu não me atrevo! tenho medo de que ao aproximar-me a visão se desvaneça no ar!
in http://www.visitazores.com/

Helena R. e Xana J.
de Alexandre O'Neill

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

[meeeeeeeeeeeeedo]

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
Helena R. e Alexandra J.
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

[medo medo medo medo medo]

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo [tudo]

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo

e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
sim
a ratos

Virgínia
de Álvaro de Campos, um excerto da "Ode Triunfal"
e
de Filippo Tommaso Marinetti , um excerto do "Manifesto Futurista"
Virgínia















Ana França
de sua autoria
Papoila
Aroma - Viços
foto de Henrique Santos que inspirou o texto de Ana França
Se uma papoila dançasse para mim,
seria tango.
Movimento para além dos nomes,
passos
com o poder de quedas de água,
abraço
mais envolvente que pele,
pés
em desenho quente pelo chão fora.

E o corpo dança,
leve e sedutor,
como o ar e o fogo
rodando e atravessando a música,
papoilas vermelhas de emoção
e o tango,
e os passos,
Ana França
o abraço
em dança leve de chama...

A labareda de dançar
porque não se pode parar.

Como papoilas
no campo
a voltear.







 a Cristina Paiva
falou-nos um pouco da relação entre "A adrenalina e a leitura"


Cristina Paiva
Entre quem lê em voz alta e quem ouve ler: 

os processos onde a adrenalina intervém e as técnicas para a usar a nosso favor.

Breve passagem pelos fenómenos físicos e psicológicos resultantes da libertação da hormona; 

técnicas usadas pelos oradores desde a antiguidade clássica até hoje, passando pelos pregadores religiosos (leitura de um excerto do sermão de Santo António aos peixes de Padre António Vieira); 

técnicas usadas pelos actores introduzidas por Konstantin Stanislavski com menção ao seu livro A preparação do actor (a edição mais antiga é da Ed. Arcádia, já muito velhinha e parece que agora só há esta versão em português do Brasil) e à difusão internacional das suas teorias pela criação do Actors Studio de Lee Strasberg em New York (leitura de um excerto de Tabacaria de Álvaro de Campos);

Brecht e o seu teatro de consciência social com uma exigência de distanciamento do actor e do público em relação às suas emoções (leitura do poema Sente-se de Bertolt Brecht);

protesto contra “os golpes baixos” ou “técnicas” usados por artistas para gerar mais adrenalina nos espectadores, como lágrimas forçadas, enganos propositados e risos aparentemente descontrolados.