Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

próxima sessão - 7 junho 2011


tema da próxima sessão


sorteado para uma leitura alternativa

algumas sugestões para os próximos dias

27 junho

Poesia de Sabores de Luís Assis
Poesia de Sabores (palavras à hora de jantar) é uma animação poética à volta das questões da gastronomia e dos sabores.
Seguindo a estrutura de uma ementa tradicional, tem por objectivo seduzir os clientes do restaurante Charcutaria Francesa a desfrutar de um jantar diferente, com uma selecção de breves textos de Alexandre O’Neill, Almeida Garrett, Pablo Neruda, Bocage, Eugénio de Andrade, Yvete K. Centeno, Camões, Herberto Helder, Mário-Henrique Leiria, entre outros.

Poesia de Sabores (palavras à hora de jantar) tem a sua primeira apresentação já no dia 27 de Maio de 2011… à hora do jantar, claro.

27 junho

Lisboa tem Histórias…de Luísa Rebelo e António Gouveia
Este mês, no cacharolete de contos dos Contabandistas

O calor continua, e as noites quentes pedem amor… que a Luísa e o António nos vão trazer com É isto o amor? Histórias que nos levam a passear por muitas e diferentes formas de amar. Contam e, apesar das
nossas tentativas para que desistissem da ideia, até cantam!

Mas a noite traz outras surpresas, com a guitarra cheia de swing de Darian, o samba maneiro e matreiro do Janeca, a poesia do Arthur, as canções de amor de Chico Buarque da Ana Sofia e da Cláudia, tudo gente que sabe muito do que faz e que ficarão a conhecer lá!

Ouvimos dizer também que Thomas Bakk e Miguel Horta virão fazer uma visita e tomar uns copos. Será?
Sexta, dia 27, a partir das 21h48. 
A entrada é livre (por enquanto!)
O Espaço SOU Movimento e Arte fica na Rua Maria, nº 73 (à Forno do Tijolo, Anjos).


 e ainda:

a partir de 15 de Junho Festival do silêncio



25 e 26 de junho
Festival Internacional Histórias de Ida e Volta (programa)
Fábrica da Pólvora, Oeiras
onde a Andante estreará o seu Poesia à la carte








todos os sábados de julho e 1º sábado de agosto
Em cena no convento de Mafra
Espectáculo Memorial do convento

2011.05.24 - Construções

Mariana
de Cecília Pinto "O bicho Homem"
Homem, tu; constróis casas.
Homem, tu; constróis pontes.
Homem, tu; constróis esperanças.
Homem, tu; constróis sonhos.

Explica-me, Homem!
Explica-me lá, Homem!
Porque é que destróis tudo?

Cecília
de Mariana Thomaz "Construção"
Letra junto a letra
e mais letras a seguir,
uma palavra
acabo de construir!

Palavra junto a palavra,
mais palavras a seguir,
um verso
acabado de concluir!

Verso junto a verso,
e mais versos a seguir,
uma estrofe
acabo de conseguir!

Com letras, palavras, versos e estrofes,
mais dos mesmos a seguir,
um poema
acabo de construir!

Mila
de Luigi Pirandello in "Um, Ninguém e Cem Mil"
















"Seria bom que houvesse um pouco mais de entendimento entre o homem e a natureza."


António Soares e Helena P.
Mário-Henrique Leiria in "Novos contos do gin"
 

A banana

Era uma Velha
tinha uma touca
estava sentada lá na Aldeia
com generais
imperativos e marciais
lá na Aldeia
também havia alguns pardais
bastante menos que generais
e muito menos
marciais
mas o que se impunha
era educar
e impor a lei
em posição mais marcial
que a do pardal
que tal que tal que tal
e a Velha querida
perna estendida
e sorridente e cordial
já prometia a importação a exportação
e algum grão de bico de bico de bico

parece então que foi
então
que quem não era general
nem considerado
com preparação operacional
na construção
reconstrução constipação
do bananal nacional
viva Tentúgal
e não tinha o menor bico
pico pico serenico
sentiu que só sol e só Velha com uma touca
que louca que louca que louca
era tristeza era pobreza
e coisa pouca
e foi-se embora
para Chucrute
para Bolero
para Zamora
e até pra França
deixando o bico
tão rico tão rico tão rico
marcando passo requiquitico
em contradança
com generais industriais
da construção
da exportação da importação
e de algum grão
de bico de bico de bico

Mário-Henrique Leiria
de Novos contos do gin


Virgínia e Paulo
de Mário Cesariny "Exposição"








































Ana França
de Pedro Támen "Caracóis"



 Desliza, liso pé, lisa palma sobre a ruga da pedra


Alexandra F.
de Maria do Rosário Pereira in "Os Caçadores de Almas"


[...]


António Gil
de Marta Pais Oliveira in "Jornal Público, 2011.05.15"

"Quando os turistas/ procuram a cultura da cidade morta"

No Cemitério Père Lachaise, em Paris, passeiam-se milhares de turistas. Todos os anos, os visitantes procuram as construções onde estão gravados nomes como Mareei Proust, Edith Piaf ou Jim Morrison.
Em Buenos Aires, no Cemitério de La Recoleta, o túmulo de Eva Perón continua a atrair flashes fotográficos, tal como no Cemitério Hollywood Forever, no Santa Monica Boulevard, onde estão enterradas celebridades da indústria de entretenimento norte-americano.
Mas não é apenas o "culto" dos famosos que atrai este turismo cemiterial é também o valor monumental das construções e os cemitérios portugueses parecem estar, por seu lado, a captar cada vez mais público, principalmente oriundo do Norte e Centro da Europa e da Ásia.
Mas o que procuram os turistas que visitam os nossos cemitérios?
Tanto os estrangeiros como os nacionais valorizam a vertente cultural e a ostentação dos cemitérios e há ainda outros que optam pela vertente do turismo "negro" - explica Francisco Queiroz, investigador da Universidade do Porto.
Dados do município de Lisboa revelam que, só em Setembro de 2010, 800 turistas passaram pelo Cemitério dos Prazeres. Mas desde Janeiro deste ano já houve 7.187 visitas de estrangeiros, na maioria alemães e holandeses. Em Portugal, só o Prado do Repouso e o Agramente, os dois cemitérios municipais do Porto, integram a Rota Europeia de Cemitérios, criada pelo Conselho da Europa, no ano passado. O circuito cultural engloba 54 cemitérios, espalhados por 18 países.

"Eles ficam fascinados"

Entre 2007 e 2010, cerca de um milhar de turistas visitou os cemitérios portuenses, espaços ricos em construções planeadas por importantes arquitectos e artistas como Soares dos Reis ou Emídio Amatucci.
O porteiro de Agramente, José Sousa, conta que, diariamente, vê entrar "entre 15 e 20 turistas estrangeiros, principalmente no final da manha". Júlio Andrade, também porteiro, diz que "entram de mapa e máquina fotográfica em punho. Para eles, é como se o cemitério coleccionasse inúmeras mini-catedrais. "Eles ficam fascinados com as construções", salienta.
Sob o calor das 15 horas, avista-se um grupo. Ana Lemos, professora de 27 anos, guia sete estudantes da Universidade Sénior Eugénio de Andrade. "Vimos pela história, diz, pela arquitectura, pela capela, pelos exemplos de escultura mortuária. E amanha trago mais sete alunos", adianta, entre risos.
A estudante Maria Gabriela, de 63 anos, explica que não é a primeira vez que visita o cemitério. "Até já tenho aqui o meu sitio", confessa.
Aproveitando o crescente interesse por estes espaços, a Câmara do Porto, celebra, entre 28 de Maio e 3 de Junho, a Semana à Descoberta dos Cemitérios, uma Iniciativa que decorre em toda a Europa!!

Extracto de uma notícia do “Público”, de 15 de Maio, assinada por Marta Pais de Oliveira


Carmen
de Sophia de Mello Breyner in "O Nome das Coisas" (1977)

O Palácio
Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)

Estátuas escadas veludo granito
Tílias o cercavam de música e murmúrio
Paixões e traições o inchavam de grito

Espelhos ante espelhos tudo aprofundavam
Seu pátio era interior era átrio
As suas varandas eram por dentro
Viradas para o centro
Em grandes vazios as vozes ecoavam
Era um dos palácios do Minotauro
O da minha infancia — para mim o vermelho

Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro
A prata brilhava o vidro luzia
Tudo tilintava tudo estremecia
De noite e de dia

Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Ali o tumulto cego confundia
O escuro da noite e o brilho do dia
Ali era a furia o clamor o não-dito
Ali o confuso onde tudo irrompia
Ali era o Kaos onde tudo nascia
(aqui fica o manuscrito)
in http://purl.pt/19841/1/1920/galeria/f11/foto1.html

Ana Valente
Trouxe-nos uma surpresa acabadinha de sair...





















Rosa
de Mena Moreira "Eu, Tu, Ele. Seres em Construção"

Que bom que tenho consciência
Do ser que sou, fragmentado
Alguém sempre em construção
Imperfeito, incompleto, inacabado

Que bom que tenho consciência
Que o crescimento é parcelado
E que quanto mais eu aprendo
Nunca estou, por completo, "terminado"

Que bom que a mim é dado
A oportunidade de corrigir, de ser reciclado
De investir no que acho que está certo
E corrigir, tentar mudar o que está errado

Que bom que a mim é dado
A oportunidade de ser renovado!...



Helena R. e Fernando
Construção de uma leitura para o CLeVA a partir de vários mails e dois textos

de Pe António Vieira excerto do "Sermão do Espírito Santo"
(…)
Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama. E fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.
(…)
de Cesário Verde in "O Livro de Cesário Verde"
Desastre
Ele ia numa maca, em ânsias contrafeito,
Soltando fundos ais e trémulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: "Homem não desfaleça!"
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes,
Corriam char-à-bancs cheios de passageiros
E ouviam-se canções e estalos de chicotes,
Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.

Viam-se os quarterões da Baixa: um bom poeta,
A rir e a conversar numa cervejaria,
Gritava para alguns: "Que cena tão faceta!
Reparem! Que episódio!" Ele já não gemia.

Findara honradamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da província, atónita, exclamava:
"Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!"

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que não entra o dia!

Um fidalgote brada a duas prostitutas:
"Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!"
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

Depois da sesta, um pouco estonteado e fraco,
Sentira a exalação da tarde abafadiça;
Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco
E o fato remendado e sujo da caliça.

Gastara o seu salário- oito vinténs ou menos-
Ao longe o mar; que abismo! e o sol, que labareda!
"Os vultos lá em baixo, oh! como são pequenos!"
E estremeceu, rolou nas atrações da queda.

O mísero, a doença, as privações cruéis
Soubera repelir - ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar diários de dez-réis.

Anoitecia então. O féretro sinistro
Cruzou com um coupé seguido dum correio,
E um democrata disse: "Aonde irás, ministro!"
Comprar um eleitor? Adormecer num seio?"

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,
-Conservador, que esmaga o povo com impostos-,
Mandava arremessar- que gozo! estar solteiro!-
Os filhos naturais à roda dos expostos....

Mas não, não pode ser... deite-se um grande véu...
De resto, a dignidade e a corrupção... que sonhos!
Todos os figurões cortejam-no risonhos
E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.

E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,
Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:
Isto porque o patrão negou-lhes a licença,
O inverno estava à porta e as obras atrasadas.

E antes, ao soletrar a narração do facto,
Vinda numa local hipócrita e ligeira,
Berrara ao empreiteiro, um tanto estupefacto:
"Morreu!? Pois não caísse! Alguma bebedeira!"

O resultado

[Costas com costas]

Fernando - hoje estou a ter um número excessivo de ideias. Achas que é por causa de ser 13 de maio? tive uma para o cleva construção, queres participar nela ?

Helena - também tive uma ideia, metia legos... só cheguei aí... havia dois textos (um do Cesário Verde) sobre operários de construção civil, o outro era aquele do Chico Buarque em que o operário "- morreu na contramão atrapalhando o sábado". Mas já recusei um convite da Alexandra Justino por estar stressada com a noite dos Livrozzz e achar que não ia ter tempo para nada...

Fernando - O que eu estou a pensar não mete legos mas pode ser feito a três. Queres falar à Alexandra? Não será nada que precise de muitos ensaios, eu diria, uma hora num qualquer dia depois da noite dos Livrozz, e mais uma passagem no próprio dia do clube.
Que texto é esse do Cesário Verde?

Helena - Olá Xana, sempre arranjaste alguém para alinhar contigo no tema da próxima sessão do CLeVA? Beijos, Lena.

Fernando - Alguma resposta a isto?

Helena - Ainda nada e por telemóvel (tentei ontem) também nada... estará tudo bem? terá ido de férias?

Fernando - Helloooo!

Helena - Finalmente consegui falar com a Xana ao telefone! Já estava a ficar um bocado preocupada a pensar o que lhe podia ter acontecido... mas está tudo bem. Ela vai preparar o texto com o João. Combinámos que na sessão seguinte, fosse qual fosse o tema, o preparávamos as duas. De qualquer modo ainda não consegui pensar nisto devidamente.

Fernando - Ok, não te preocupes. Pensamos nisto a partir de sábado. Eu também não sei se farei alguma coisa antes.

[Viramo-nos para a frente:]

Helena – Olá!
Tinhas perguntado pelo texto do Cesário Verde, chama-se DESASTRE e é o que vai assim...

Ele ia numa maca, em ânsias contrafeito,
Soltando fundos ais e trémulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.
(…)

Só que estive a experimentar e é enorme! Demora quase 4 minutos, se o ler todo...

Fernando - Pois, é muito grande... mas podíamos aproveitar umas partes onde haja alguma ligação com o que eu escolhi.
É do Padre António Vieira e é assim:

(...) Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda.

Helena - Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

Fernando - Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama.

Helena - O mísero, a doença, as privações cruéis
Soubera repelir — ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar diários de dez-réis.

Fernando - E fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar. (…)

Helena - Ah! Ah! Foi para a vala imensa,
Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:
Isto porque o patrão negou-lhes a licença,
O inverno estava à porta e as obras atrasadas.
(...)

[Viramo-nos um para o outro]

Fernando – Parece-te bem?

Helena - Parece-me bem! Quando nos encontramos para preparar isto com mais jeito? Eu estava a precisar de fazer uns exercícios! Como aquele em que lemos o texto de trás para a frente...

bebedeira Alguma caísse! não Pois Morreu!?

Fernando [entra e ficamos os dois ao mesmo tempo e fade out*]

estupefacto tanto um empreiteiro ao Berrava
ligeira e hipócrita local numa vinda fato do
narração a soletrar ao antes E

atrasadas obras as e porta à estava inverno o
licença a negou-lhes patrão o porque isto
camaradas rudes dos adeus o sem tumba Na
imensa vala a para Foi Ah Ah Desgraçado? o E

*Fernando – A rran ca o es ta tu á rio u ma pe dra de ssas mon ta nhas, tos ca, bru ta, du ra, in for me; e de po is que des bas tou o mais gro sso, to ma o ma ço e o cin zel na mão e co me ça a for mar um ho mem, pri mei ro mem bro a mem bro, e de po is fei ção por fei ção, a té a mais mi ú da.

[Fim]

Ana Maria
"Palavras em Construção"


João, Xana, Vasco, Vitória
de Terry Pratchet uma encenação de "Pirâmides"


Clique nas imagens para as ampliar


























Paulo M.
de Machado de Assis in "Dom Casmurro"
Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro... Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.
Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros... Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho.

Este texto já pertence ao domínio público, portanto pode ser visto integralmente aqui


De seguida
a Cristina fez uma leve abordagem à Poesia Sonora

Aqui ficam algumas das ligações:

Uma tentativa de escutar a escrita – a proposta do “poema-em-música” um estudo de Annita Costa Malufe

Poema sonoro/ música poética
Entre a música e a poesia sonora: uma arte de fronteira. Um estudo de Daniel Quaranta

Los origenes de la poesia sonora de Dick Higgins Traduzido para espanhol

 John Cage about silence

Orson Welles entrevista o poeta romeno radicado em Paris Isidore Isou que apresenta o Letrismo

Aula de poesia sonora na Universidade de Coimbra

Sibila – Poesia e Cultura - revista brasileira com página sobre poesia sonora onde pode ser ouvido o cd,  "A Voz é Princesa"

Um exemplo de polipoesia:

Poesia experimental portuguesa


e acabámos a noite com um exercício:




A partir destes três poemas:

Oh as casas as casas as casas

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo
de Palavra[s] de lugar

*****************

O Lugar da Casa

Uma casa que nem fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade
de O sal da língua

********************

As casas

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

Luiza Neto Jorge
de Terra Imóvel






Oh as casas as casas as casas
Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem

As casas vieram de noite
De manhã são casas

Oh as casas as casas as casas

À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores

Oh as casas as casas as casas

Dentro do estuque se fecham
pensativas

À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Oh as casas as casas as casas

Uma casa que fosse um areal
deserto;

que nem casa fosse;

só um lugar onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria;

e aqueceu as mãos;

e partiu porque tinha um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

Oh as casas as casas as casas

Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas

Oh as casas as casas as casas

A partir de 3 poemas de Ruy Belo, Eugénio de Andrade e Luiza Neto Jorge

próxima sessão - 24 maio 2011

tema


as leituras individuais não deverão exceder os 3 minutos

CLeVA - 2ª temporada





Bem vindos ao CLeVA 2.0
As actividades normais do clube recomeçam, e damos as boas vindas a todos os novos elementos! Esperamos que se divirtam pelo menos tanto como nós nos divertimos no ano que passou.

Continuamos a sortear temas para cada sessão e vamos tentar manter a areia da ampulheta: cada leitura só pode demorar no máximo 3 minutos. Um verdadeiro desafio, só ao alcance dos que gostam mesmo muito de ler em voz alta: seduzir os outros para a leitura de um texto com tempo muito limitado!

Como a sedução depende também da surpresa, continuam as "leituras diferentes". Quem se atreve a ler "com cheiro a maresia", "como os pássaros", "em conjunto", "a fazer o pino", "em silêncio"... na próxima sessão teremos mais novidades.

Para podermos aprender rapidamente os nomes uns dos outros, este post tem fotografias de toda a gente.
As nossas desculpas a alguém que possa não ter ficado tão bem "no retrato".



[ Andante - Fernando e Cristina ]

Os textos do dia...
foram escolhidos pela Cristina, e foram trabalhados em grupo durante 5 minutos.
[ Nicole / Teresa / Laura ]
Os Direitos Inalienáveis do Leitor
Daniel Pennac

1
O Direito de Não Ler
2
O Direito de Saltar Páginas
3
O Direito de Não Acabar Um Livro
4
O Direito de Reler
5
O Direito de Ler Não Importa o Quê
6
O Direito de Amar os “Heróis” dos Romances
7
O Direito de Ler Não Importa Onde
8
O Direito de Saltar de Livro em Livro
9
O Direito de Ler em Voz Alta
10
O Direito de Não Falar do Que se Leu

[ Vitória / João / Vasco ]
Na biblioteca (excerto)
Manuel António Pina

(...) Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

[  Rosa / Helena Policarpo / Virgínia ]

Um livro
Jorge Luis Borges

Apenas uma coisa entre outras coisas
Mas também uma arma. Foi forjada
Na Inglaterra, em 1604,
E carregada com um sonho. Encerra
O som, a fúria, a noite e o escarlate.
A minha mão sopesa-a. Quem diria
Que contém o inferno: essas barbudas
Bruxas que são as parcas, os punhais
Que executam as duras leis da sombra
O delicado ar desse castelo
Que te verá morrer, a delicada
Mão que é capaz de ensanguentar os mares,
O clamor e a espada da batalha.
Esse tumulto silencioso dorme
No espaço de um só livro, na tranquila
Prateleira da estante. Dorme e espera.

[ Ana Rita / Paulo Machado / Carmen ]

A palavra mágica
Carlos Drummond de Andrade

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não o encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

[ Paulo Correia / Alexandra Ferreira ]

Onde estará esse leitor
Carlos Queiroz

Onde estará esse leitor
Que não soletra nem recita?
Que não tropeça nas imagens
Que não ofende os nossos ritmos
Que não destrói as nossas flores?

Onde estará esse leitor,
Onde estarão esses leitores?

[ Cecília / Sylvie / Mila ]

Legado
Miguel Torga

O que eu espero, não vem.
Mas ficas tu, leitor, encarregado
De receber o sonho.
Abre-lhe os braços, como se chegasse
O teu pai, do Brasil,
A tua mãe, do céu,
O teu melhor amigo, da cadeia,
Abre-lhe os braços como se quisesses
Abarcar toda a luz que te rodeia.

Não lhe perguntes porque tardou tanto
E não chegou a tempo de me ver.
Uns têm a sina de sonhar a vida,
Outros de a colher.

[ Helena Ramos / António Gil / Mariana ]

Valor das palavras
Almada Negreiros

Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado de onde se ouvem – do lado do sol ou do lado onde não dá o sol. Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o universo. As palavras querem estar nos seus lugares!

[ Ana Valente / Alexandra Justino / Ana Maria Thomä]

Os meus livros
Jorge Luis Borges

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

[ António Soares / Fernando / Ana França ]

Como um Romance (excerto, pp. 89)
Daniel Pennac

(...)
Pois é...
O desaparecimento da leitura em voz alta é muito estranho. O que teria Dostoievski pensado disto? E Flaubert? Já não há o direito de colocar as palavras na boca antes de as meter na cabeça? Já não há ouvidos? Já não há música? Já não há saliva? As palavras já não sabem a nada? O que é que se passa? Não declamou Flaubert a sua Bovary em altos gritos, até furar os tímpanos? Não estará ele definitivamente melhor colocado do que qualquer outro para saber que a compreensão do texto passa pelo som das palavras, de onde deriva todo o seu sentido? Não saberia ele como ninguém, ele que tanto lutou contra a música intempestiva das sílabas, contra a tirania das cadências, que o sentido se pronuncia? Então? Textos mudos para puros espíritos? Rabelais, ajuda-me! Flaubert, Dosto, Kafka, Dickens, acudam-me! Gigantescos anunciadores de sentido, venham cá! Venham soprar nos nossos livros! As palavras precisam de corpo! Os nossos livros precisam de ter vida!


Exercício: leitura em conjunto

Aurora boreal
António Gedeão

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

começa hoje o CLeVA 2.0

(...) Pois é...
O desaparecimento da leitura em voz alta é muito estranho. O que teria Dostoievski pensado disto? E Flaubert? Já não há o direito de colocar as palavras na boca antes de as meter na cabeça? Já não há ouvidos? Já não há música? Já não há saliva? As palavras já não sabem a nada? O que é que se passa? Não declamou Flaubert a sua Bovary em altos gritos, até furar os tímpanos? Não estará ele definitivamente melhor colocado do que qualquer outro para saber que a compreensão do texto passa pelo som das palavras, de onde deriva todo o seu sentido? Não saberia ele como ninguém, ele que tanto lutou contra a música intempestiva das sílabas, contra a tirania das cadências, que o sentido se pronuncia? Então? Textos mudos para puros espíritos? Rabelais, ajuda-me! Flaubert, Dosto, Kafka, Dickens, acudam-me! Gigantescos anunciadores de sentido, venham cá! Venham soprar nos nossos livros! As palavras precisam de corpo! Os nossos livros precisam de ter vida! (...)

Daniel Pennac

30 de Abril, 2011 - O CLeVA é um espectáculo (título provisório)

[Todos]

Um carnaval
Alexandre O´Neill

[Vem ao baile
Vem ao baile
Vem ao baile
Vem ao baile
Vem ao baile]

Vem ao baile
Vem ao baile
Pelo braço
ou pelo nariz
Vem ao baile
Vem ao baile
E vais ver como te ris
[E vais ver como te ris
E vais ver como te ris]

Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo
vem beber

Vem ao baile das palavras
que se beijam
desenlaçam
Palavras que ficam
passam
Como a chuva nas vidraças

Vem ao baile
oh tens de vir
E perder-te nos espelhos
[Vem ao baile
oh tens de vir
E perder-te nos espelhos]
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir

Vem ao baile[, vem ao baile, vem ao baile] da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco[, borco, borco, borco, borco]
A tua alma é mais pura

Vem ao baile
vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile
baile baile
E vais ver o que é bailar.


Ana Rita: Mãezinha (António Gedeão) e Alexandra J: Testamento (Ana Luisa Amaral)

[Ana Rita]
Mãezinha
António Gedeão


A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.

28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.


[Alexandra J.]
Testamento
Ana Luísa Amaral


Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras


Paula: Rondel do Alentejo (Almada Negreiros)

[Paula]
Rondel do Alentejo
José de Almada Negreiros


Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

Meia-noite
do Segredo
no penedo
duma noite
de luar.

Olhos caros
de Morgada
enfeitada
com preparos
de luar.

Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas
e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são as fitas
desafogo
de luar.
Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida
doentinha
e a ermida
ao luar.

Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.

Giram pés
giram passos
girassóis
e os bonés
e os braços
destes dois
giram laços
ao luar.

O colete
desta virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem de luar.

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete de luar.


[Helena P.]
Monólogo de uma actriz enquanto se maquilha
Bertolt Brecht


Vou fazer o papel de uma bêbeda
Que vende os filhos
Em Paris, nos tempos da Comuna.

Tenho apenas cinco réplicas.
E preciso de me deslocar, de subir a rua.

Caminharei como gente livre
Gente que só o álcool
Quis libertar e voltar-me-ei
Como o bêbado que receia
Ser perseguido. Voltar-me-ei
Para o público.

Analisei as minhas cinco réplicas como os documentos
Que se lavam com ácido para descobrir sob os caracteres visíveis
Outros possíveis caracteres.

Pronunciarei cada réplica
Como a melhor acusação
Contra mim e contra todos os que me olham.

Se eu não reflectisse maquilhar-me-ia simplesmente
Como uma velha beberrona
Doente e decadente.

Mas vou entrar em cena
Como uma bela mulher que guarda a marca da destruição
Na pálida pele outrora macia e agora cheia de rugas
Outrora atraente e agora repelida

Para que ao vê-la cada um se interrogue: quem
Fez isto?

[Todas as mulheres]
Calçada de Carriche
António Gedeão


Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.

Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,

puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;

toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,

puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

[Paulo]
Os amantes sem dinheiro
Eugénio de Andrade


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

[Mariana]
Soneto
Luís de Camões


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel, lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida

começa de servir outros sete anos,
dizendo:”Mais servira se não fora
para tão longo amor tão curta a vida!”

António: Caranguejola (Mário de Sá-Carneiro)


[António]
Caranguejola
Mário de Sá-Carneiro


Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

[Alexandra F.]
Todos os homens são maricas quando estão com gripe (pasodoble)
António Lobo Antunes



Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher -
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes
que foi aquilo
não é a chuva
no meu-postigo
ai Lurdes Lurdes
fica comigo
não é o-vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão de ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.

[Helena M.]
Bairro Livre
Jacques Prévert


Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro

[Carlos Morgado]
Pastelaria
Mário Cesariny


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

[Augusto]
Tenho uma grande constipação
Álvaro de Campos


Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez du peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e de aspirina.

[Todos os homens]
Sentenças delirantes de um poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes
Alexandre O'Neill

1

Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato
a sua marcha
e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.

2
Não te candidates, nem te demitas.
Assiste.
Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.
Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3
Tira as rodas ao peixe congelado,
mas sempre na tua mão.
Depois, faz um berreiro.
Quando tiveres bastante gente à tua volta,
descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4
Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre
um caixote com serradura à tua espera.
Pode haver.
Se houver, melhor...
Esta deve ser a tua filosofia.

5
Tudo tem os seus trâmites, meu filho!
Não faças brincos de cerejas
sem te darem, primeiro, as orelhas.
Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6
Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que
te puseram em cima da cabeça?
Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.
É provável que te sintas logo muito melhor.
Sai, então, de baixo da pedra.

7
Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.
Poderias atrapalhar os trabalhos.
Os de pedra sobre pedra, entenda-se.
Mas dá sempre um «Bom dia!» ao pessoal do estaleiro.
Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8
Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre
com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo
a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.
Oxalá o consigas!

9
Tens um glorioso passado futurível,
mas não fiques de colher suspensa,
que a sopa arrefece.

10
Se tiveres de arranjar um nome para uma personagem de tua criação,
nunca escolhas o de Fradique Mendes.
A criação literária não frequenta o guarda-roupa,
muito menos quando a roupa tem gente dentro.

11
Resume todas estas sentenças delirantes numa única sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa.


[Fernando]
Janelas
João Cabral de Melo Neto


há um homem fugindo
de uma árvore; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu.




[Mila]
Diálogo com a figura do profeta Jeremias, pintada por Miguel Ângelo no tecto da capela sistina
Ruy Belo


Pensa tens que pensar bastante Jeremias
sobre ti pesa o peso de pensar por nós que não pensamos
por nós que temos horas para tudo o que pensar não seja
que temos o emprego as lojas os cinemas o relógio
que com suor pagamos pelo tempo todo nosso
o preço duma vida inteiramente submetida
às botas dos senhores deste mundo
pensa tu Jeremias que talvez resolvas tu
problemas até hoje pouco menos que insolúveis
redutíveis talvez a pequenas palavras como pão
ou casa ou roupa simples condição pra conseguir
que o homem possa estar sobreviver
sobre esta terra sólida passível no entanto
de submissão ao sedutor encanto
de fantasmas talvez manipulados longos séculos
Depois procura que não mais o homem
que pouco tempo vive neste único mundo
veja fugir o poder de pensar
pois mais que privilégio é um fardo pensar
Que ao homem se consinta defender a sua vida
de quem mais que matá-lo claramente e duma vez
a vida lhe retira ambiguamente
Que possa ver a pedra a terra a estrela
o animal a árvore a sucessão das estações
o dia a noite o pôr do sol
Que viva muito mais por saber ler
por poder descobrir noutras pegadas anteriores às suas
passado para os passos que lhe cabe dar
na terra e no momento em que tem de viver
(...)
Pensa sem transcendência pensa apenas
deita contas à vida lembra a noite
que desce sobre nós veladamente
(...)


João: Inventário (Miguel Torga)
[João]
Inventário
Miguel Torga


E, apesar de tudo, sou ainda o Homem!
Um bípede com fala e sentimentos.
Ao cabo de misérias e tormentos,
Continua
A ser a minha imagem que flutua
Na podridão dos charcos luarentos.

Sou eu ainda a grande maravilha
Que se mostra no mundo.
O negro abismo que tem lá no fundo
Um regato a correr:
Uma risca de céu e de frescura
Que murmura
A ver se alguma boca a quer beber.

Quanto o grave silêncio da paisagem
Me renega e protesta,
Pouco importa na festa
Deste encontro feliz;
Obra de Arcanjo ou de Satanás,
Eu é que fui capaz
De fazer o que fiz!

Podia ser melhor o meu destino:
Ter o sol mais aberto em cada mão...
Mas, Adão,
Dei o que a argila deu.
E, corpo e alma da degradação,
O milagre é que o Homem não morreu!

Não! Não me queiram na cova que não tenho,
Porque eu vivo, e respiro, e acredito!
Sou eu que canto ainda e que palpito
No meu canto!
Sou eu que na pureza do meu grito
Me levanto!


Cecília: Traduzir-se (Ferreira Gullar)
[Cecília]
Traduzir-se
Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


miau...


Helena R.: Uma prosa sobre os meus gatos (Manuel António Pina)

[Helena R.]
Uma prosa sobre os meus gatos
Manuel António Pina


Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.

Daniel: A sementinha e a flor (Lília da Fonseca); Teresa: Maracujá (Ernesto Lara Filho)
[Daniel]
A sementinha e a flor
Lília da Fonseca


O Vento
agarrou na sementinha
e levou-a
para uma terra lavrada

As Nuvens
choraram de madrugada

O Sol
em dias a fio
tudo beijou com amor

E numa tarde de estio
transformada em bela planta
a sementinha deu flor.




[Teresa]
Maracujá
Ernesto Lara Filho


Um dia
o pé de maracujá
que eu plantei no quintal
cresceu e floriu.

Eu nunca tinha visto
a flor do maracujá.

Juro por Deus que nunca vi
coisa mais linda no mundo
do que a flor violeta
do pé de maracujá
que eu plantei
na cerca do meu quintal.

Um dia
o maracujá
que eu plantei no meu quintal
cresceu
e floriu...

[Virgínia]
Ode à crítica
Pablo Neruda


Escrevi cinco versos:
um verde,
outro era um pão redondo,
o terceiro uma casa a levantar-se,
o quarto era um anel,
o quinto verso era
breve como um relâmpago
e ao escrevê-lo
deixou em mim a sua queimadura.

E então, os homens
e as mulheres,
vieram e tomaram
a singela matéria,
fibra, vento, fulgor, barro, madeira
e com tão pouca coisa
construíram
paredes, andares, sonhos.
Numa linha da minha poesia
secaram roupa ao vento.
Comeram
minhas palavras,
guardaram-nas
junto à cabeceira,
viveram com um verso,
com a luz que saía do meu flanco.
Então,
veio um critico mudo,
outro cheio de línguas,
e outros, outros chegaram
cegos ou cheios de olhos,
elegantes alguns
como cravos de sapatos rubros,
outros estritamente
vestidos de cadáveres,
alguns partidários
do rei e da sua alta monarquia,
outros tinham-se
enredado na fronte
de Marx e esperneavam na sua barba,
outros eram ingleses,
simplesmente ingleses,

e entre todos
lançaram-se
com dentes e com facas,
com dicionários e outras armas negras,
com respeitáveis citações,
lançaram-se
a disputar a minha pobre poesia
aos homens simples
que a amavam:
e fizeram-na em funis,
enrolaram-na,
prenderam-na com cem alfinetes,
cobriram-na com poeira de esqueleto,
encheram-na de tinta,
cuspiram-lhe com suave
cortesia de gatos,
destinaram-na a embrulhar relógios,
protegeram-na e condenaram-na,
lançaram-lhe petróleo,
dedicaram-lhe húmidos tratados,
cozeram-na com leite,
juntaram-lhe pedras pequeninas,
apagaram-lhe vogais,
foram-lhe matando
sílabas e suspiros,
dobraram-na e fizeram
um pequeno pacote
que destinaram cuidadosamente
aos seus esconsos, aos seus cemitérios.

Depois
retiraram-se um a um
enfurecidos até à loucura
porque não fui bastante
popular para eles
ou impregnados de suave menosprezo
pela minha vulgar falta de trevas,
retiraram-se
todos
e então,
outra vez,
junto à minha poesia
voltaram a viver
homens e mulheres,
de novo
acenderam o lume,
construíram casas,
comeram o pão,
repartiram a luz
e no amor uniram
relâmpago e anel.
E agora
perdoai-me, senhores,
que interrompa esta história
que estou a contar-lhes
e vá viver
para sempre
com a gente simples.

[BÊ-A-BÁ...]

[Cristina]
Arte Poética V
Sophia de Mello Breyner Andresen


Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

Cristina: O menino azul (Cecília Meireles)

[in memoriam Isabel]
O Menino Azul
Cecília Meireles

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
- de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)